Every Hand Revealed - Gus Hanson

2010/02/01 por Escola de Poker

Poucos jogadores no circuito profissional suscitam tanta análise como Gus Hansen, graças ao seu estilo de jogo tão especial. O debate começa com o primeiro episódio do “World Poker Tour Season 1” em que o “Great Dane” aparece a vencer o “2002 Five Diamond World Poker Classic” graças a várias jogadas pouco ortodoxas.

Every Hand Revealed - Gus Hanson

“Ele jogou muito mal”, disse Freddy Deeb, um dos adversários dele na mesa final. Mais dois títulos WPT, numerosas presenças em shows, tais como “Poker After Dark” e “High Stackes Poker”, a vitória no Aussie Millions, e uma longa presença (61º) no WSOP Main Event do ano passado ainda incendiaram mais a especulação, deixando muitos a pensar, repetidamente, “Qual foi o segredo?”

Com “Every Hand Revealed”, Hansen oferece uma completa resposta para essa questão. Começando pela premissa que “ainda terá que surgir um livro que, convincentemente, apresente uma estratégia viável de Poker baseada na prática, não na teoria”, Hansen descreve minuto a minuto a sua vitória no 2007 Aussie Millions com descrições de todas as mãos desde o inicio do Dia 1 até à ultima jogada do Heads-Up Final.

O formato faz lembrar exemplos recentes de jogadores como Greg Raymer e Annette Obrestad, ao tornarem públicos os históricos completos das mãos jogadas nos seus triunfos em torneios on-line, convidando outros a retirarem o que conseguirem a partir de tais detalhes tão ricos. A diferença, claro, é que Hansen narra aqui uma experiência num torneio ao vivo, e também fornece muito mais informação que um simples ensaio sobre o tamanho das stacks, cartas recebidas, e acções de apostas.

Tecnicamente falando, nem todas as mãos do triunfo da Hansen no Aussie Millions são reveladas. Hansen omitiu discutir mãos onde ele passou sem nenhuma acção pré-flop. No entanto, sobraram ainda 329 mãos para que Hansen fale delas, descrevendo os detalhes pertinentes que ele conseguiu preservar no seu gravador portátil, após cada mão.
 
Dessas, Hansen designou 21 como “mãos cruciais” que provaram ser especialmente criticas quando avaliamos o seu sucesso global neste torneio. Também adicionou uma colectânea final de dados descrevendo o seu jogo num capítulo audaciosamente chamado “Estatísticas e dicas para todos os meus companheiros cromos” (”Stats and Tips for all My Fellow Poker Nerd”).
 
O que resulta é um relato extraordinariamente consistente de um jogador confortável com ver uma alta percentagem de flops e então exercer pressão máxima sobre os seus adversários. Conforme vamos avançando no livro, um número comum de temas são realçados, incluindo a compreensão do significado das estruturas blind/ante, as diferenças entre estratégias para short-handed vs. full table, a importância ir a zero nas tendências dos adversários, e a constante necessidade de ter presente o tamanho das stacks e as pot odds.
 
O leitor verá Hansen frequentemente obter vantagem do momento em que os outros jogam durante a primeira e a última órbita de cada nível. Também conseguirá reconhecer como Hansen considera fazer limp pré-flop raramente uma boa ideia, mas fazer call post-flop com posição pode ser correcto talvez mais vezes que alguém possa pensar.
 
Numa das “mãos cruciais” do Dia 3, Hansen descreve o processo de raciocínio que resultou na sua decisão de fazer call a uma aposta check-raise all-in de Paul Wasicka no flop quando tinha na mão apenas Ace high e uma open-ended straight draw. Em vez de levar os cálculos matemáticos usuais em conta, Hansen explica como ele também considerou as “menos-fácilmente-quantificáveis” consequências se largasse a mão. “Se eu fizesse fold desta mão e o Mr. Wasicka mostrasse um completo air-ball, eu iria definitivamente perder algum momentum,” explicou.
 
“Se ele escolhesse não mostrar a mão com um pequeno sorriso na face, a dúvida iria rastejar na minha mente e poderia levar algum tempo até conseguir recuperar a minha compostura e a minha imagem na mesa.” Isto é uma de várias passagem intrigantes onde Hansen tenta partilhar como essas coisas intangíveis muitas vezes têm tanto a ver com a tomada de decisões, tal como têm odds e outs.
 
Jogadores experientes em MTT irão certamente encontrar aqui muitos motivos de interesse, incluindo um número de mãos merecedoras de extensos debates em fóruns de Poker. O livro deveria também apelar àqueles com menos interesse e/ou paciência, devido à tão densa colectânea de análise de mãos, primeiramente devido aos muitos relatos, num tom quase convencional que Hansen aplica. Irão descobrir partes humorísticas e com sarcasmo ao longo do livro, e flashes inesperados que funcionam bem para manter o interesse do leitor nos procedimentos.
 
Por exemplo, quando fala sobre uma mão onde três jogadores vêm o flop, Hansen escreve, “Eu apostei primeiro 66K num pot de 118K, e antes que possas dizer ‘Phil Hellmuth’ ambos foldaram!” – uma referência engraçada ao muito citado “Poker Brat” por fazer “laydowns” ultra rápidos. 
 
A sua maior vitória são esses momentos de auto-depreciação, quer ele esteja a troçar da sua imagem selvagem ou genuinamente a adivinhar as suas decisões menos planetárias, tais como quando ele fala sobre uma mão no Dia 2 onde ele faz um simples call com top pair, deixando então o seu adversário apanhar a carta e ser ultrapassado no river: “Eu joguei esta mão como um novato, um fish, um idiota!”
 
No momento em que chegamos à mesa final com Hansen, compreendemos que enquanto ele jogou arduamente todas as 329 mãos que ele descreveu sem errar, ele fez muitas, mas muito mais boas decisões que más decisões. E quase todas as decisões foram descritas por cuidadosos pensamentos estratégicos.
 
Hansen certamente beneficiou de alguma sorte ao longo do decorrer do 2007 Aussie Millions, incluindo quando teve que batalhar para recuperar (duas vezes) de diferenças de stack em 3 para 1 quando estava heads-up contra Jimmy Fricke. No entanto, depois de ler “Every Hand Revealed,” fica claro que quando alguém pergunta “Em que é que Hansen estava a pensar?” uma resposta razoável devia ser “Em muita coisa.”


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