Squeeze e Re-Squeeze
Actualmente o poker vive dias de constante evolução e (re-) adaptação. Para quem vive esta modalidade no dia a dia, não será difícil perceber que existe uma constante mutação nos estilos de jogo.
Com alguma capacidade analítica, poderemos constatar que as formas e estilos de jogo, os perfis de jogador ou o arsenal de movimentos utilizados hoje em dia são diferentes de há uns meses atrás, que por sua vez diferem também de estilos de jogos mais preconizados há dois anos atrás e, presumo (dado que a minha experiência como jogador remonta até cerca de um ano e alguns meses atrás e desta forma não vivi “in loco” a evolução do poker antes desse período) assim consequentemente.
Ora se num espaço de tempo inferior a dois anos podemos constatar tais mudanças, parece-me imperativo para um jogador de poker actual adaptar-se e estar um pouco à frente da “moda do momento” e ter bem presente a consciência da mutação contínua que o poker tem hoje em dia.
Vamos então neste artigo falar um pouco sobre um dos movimentos que nos últimos tempos está bastante em voga, muito devido à obra de Harrington na sua bibliografia sobre torneios: O Squeeze.
Para além disso, e como quase sempre um “vírus” tem um antídoto, vamos também falar sobre como contornar este movimento com aquilo que poderemos intitular de Re-squeeze ou Anti-Squeeze.
Squeeze play – O que é?
Basicamente este movimento é um bluff (ou semi-bluff) executado não contra um, mas contra vários jogadores e consiste em, após uma bet e uma série de calls, fazer um raise suficientemente grande para levar esse pote. Apesar de pós-flop ser por vezes utilizada esta expressão, normalmente este conceito está associado a contextos pré-flop. Vamos ver um exemplo do squeeze play em acção:
(Blinds 500/1000)
MP1 – 45000 (Jogador Loose/Agressive, muito activo nas últimas mãos a fazer raise em imensos potes)
MP2 – 54750 (Weak player)
...
Button – 37800 (Bom jogador, sólido, positional aware)
SB – 28900 (Weak player)
Oversleep (BB) – 47800
Preflop: Oversleep is BB with JC 9C
… MP1 raises to 2700, MP2 Calls, …, Button Calls, SB folds, Oversleep raises to 12800, MP1 folds, MP2 folds, Button folds.
O raiser inicial fica “squeezed” entre o jogador que demonstrou força ao fazer este re-raise perante vários jogadores na mão e os restantes jogadores que ainda faltam falar, desta forma vai sentir-se obrigado a fazer fold de praticamente tudo que não sejam mãos premium. Sem os jogadores que fizeram call, o raiser inicial estaria numa posição completamente diferente desta. Aqui ele, caso pondere fazer call ou re-raise sabe que tem ainda jogadores para falar e sendo assim sente uma certa pressão e incerteza no que se vai passar dai para a frente, pensando na possibilidade de haver overcalls ou re-raises.
Dessa forma, praticamente sempre, ele só vai permanecer na mão se estiver realmente forte e vai possivelmente fazer fold de mãos que se estivesse sozinho com o “squeezer” não faria. À primeira vista este movimento parece arriscado já que estás a bluffar vários jogadores ao mesmo tempo. Se levas call de um deles encontras-te perante uma situação complicada, de qualquer das formas a relação risco/recompensa é bastante boa.
Requisitos para o sucesso do squeeze
Imagem – A tua imagem perante os teus adversários tem importância chave em praticamente qualquer bluff. É importante que te dêem crédito. Jogadores tight e sólidos terão sempre mais probabilidades de sucesso do que jogadores agressivos e que jogam de forma mais loose. Imagina que fizeste re-raises umas três vezes nas últimas dez mãos, certamente que aqui não é a altura ideal para tentar o squeeze. Por muito que tenhas feito re-raise em mãos anteriores com mãos legítimas, não te vão dar crédito por tantos raises seguidos com monstros, nomeadamente se acabaste por não mostrar as mãos anteriores.
Adversários – Deves conhecer que movimentos os teus adversários têm no seu arsenal e qual o seu perfil. Isto é crucial para o sucesso do squeeze play. Imagina que estás a jogar com um jogador maníaco ou um calling station que vai fazer call com qualquer duas cartas então definitivamente aqui não é o sítio correcto para utilizares este movimento. Este movimento funciona melhor quando o raiser inicial é agressivo e/ou loose, ou quando está particularmente activo, isto é, o range de mãos com que ele faz este raise é grande.
O raiser inicial é uma peça fundamental e deves sentir que, caso seja um jogador tight este não é definitivamente o momento certo para tentares este movimento. Os restantes jogadores que fazem call tornam esta jogada lucrativa isto porque, numa grande maioria das vezes, o facto de apenas fazerem call indica que não têm mãos suficientemente fortes para fazer re-raise, e dessa forma não podem fazer call ao teu re-raise. As fichas/dinheiro que eles têm em jogo são o que normalmente é apelidado de “dead money”. Convém também lembrar que deves basear a tua análise do jogo do teu adversário como um todo e não somente nas últimas duas ou três mãos. Desta forma é importante sublinhar que se não te sentes muito confortável na análise dos teus adversários, se reconheces que não tens grandes capacidades de atribuição de ranges de mãos, então o risco deste movimento aumenta substancialmente e deves evitar utilizá-lo.
Adicionalmente, é útil teres também suficiente informação sobre os jogadores que fazem call de forma a teres garantias suficientes que não são slowplayers e que fazem apenas call a raises com monstros. Finalmente, não te esqueças de analisar quem ainda falta para falar, caso não sejas o último a falar, analisar a sua stack, possíveis tells, e tentar perceber se existe alguma possibilidade de este jogador ter algum tipo de mão forte.
Encontrar o Spot correcto/Timing – Não precisas de um monstro para executar este move. Precisas sim de, associado a uma imagem credível e uma grande capacidade de leitura dos teus adversários, encontrar o timing e feeling correctos para perceberes que encontraste um bom spot para o movimento.
Late stages de torneios – Este movimento funciona bem tanto em cash games como em torneios. Mas falando especificamente de torneios, é algo que, definitivamente não deve ser utilizado em fases iniciais dos mesmos, isto porque nesta fase as fichas que possas obter não terão a mesma importância que terão numa fase mais avançada de um torneio onde as blinds estão mais altas e existem também antes o que faz com que o retorno seja bem mais significativo. Para além disso, nas fases iniciais de torneios os jogadores tendem a fazer calls muito mais light do que em fases mais avançadas.
Quando não utilizar o Squeeze
Jogos com jogadores maníacos e calling stations — Normalmente o squeeze é uma jogada má e imprópria quando estás a jogar em jogos “loucos” com muita acção, jogos com muitos calling stations, jogadores fracos que não conseguem fazer fold e respeitar um movimento deste género por muita força que possa representar.
Analisar dimensões das stacks
Deves considerar cuidadosamente a tua stack e a stack dos teus adversários. A tua stack tem que ser suficientemente grande para poderes ter fold equity, para além disso deves, em função da tua stack, tomar a decisão sobre o que vais fazer caso o movimento não corra bem e levares com re-raise ou se levares call. Quanto às stacks dos teus adversários, se estão demasiado short deves ver se estão pot commited perante o teu re-raise e para além disso, se estão com stack onde após verem um pote tão grande a ser criado decidem “ir ao gamble” e fazer call.
Por outro lado se a stack deles é exageradamente grande e se o teu re-raise for apenas uma pequena percentagem da sua stack (digamos até 15% da sua stack) serão jogadores com maior facilidade em fazer-te call por isso esquece, não é a altura ideal para este movimento.
Re-Squeeze – O que é?
Ora está razoavelmente implícita na expressão o que significa um re-squeeze. Basicamente o raiser inicial ou um dos callers (mais raro) colocará o jogador adversário neste tipo de movimento e faz um novo re-raise demonstrando ao squeezer que realmente tem uma mão muito forte. Aqui, basicamente terás que relegar muito do teu poder de decisão às tuas leituras sobre o teu adversário e também muito importante, à percepção e imagem que ele tem do teu jogo, nomeadamente nas últimas mãos.
O mind game e meta game sobem aqui ao mais alto nível e, basicamente, com este movimento estás a representar AA, talvez KK, mas nunca menos do que isso e certamente mesmo que o teu adversário tenha uma mão tão forte como JJ, AK ou até QQ certamente vai ponderar fazer fold dessas mãos, isto para não falar dos casos em que ele está mesmo a fazer squeeze.
Quando funciona
Se foste “squeezed” por um adversário que sabes que gosta de utilizar este movimento e se consideras que, tu, no lugar dele sentirias que estão criadas as condições propícias para um squeeze então existem hipóteses legítimas que ele “não tenha uma mão” e esteja mesmo a fazer-te squeeze. Detalhando um pouco mais, se pensarmos um pouco, tipicamente, a maioria dos jogadores não vai fazer re-raise nestas condições com mãos como 77,88,99,AQ por exemplo, seriam mãos em que provavelmente fariam apenas call. Desta forma, habitualmente, um re-raise nestas condições está associado a um range polarizado: Ou realmente é um verdadeiro monstro como AA, KK, QQ ou então está a fazer squeeze com uma mão marginal, fraca.
É importante teres a noção que não necessitas necessariamente de ter uma mão muito forte para tentares fazer um Re-squeeze já que assenta tão fortemente na tua leitura do teu adversário e na fold equity que sentes que tens. De qualquer das formas a força da tua mão, nas situações em que a tua leitura não correr bem e levares call dá-te algum valor adicional ao movimento, mas se achares que ele está “squeezing with air” então leva a tua leitura até ao fim e não te preocupes com a tua mão “any two”.
Quando não funciona
O Re-squeeze obviamente só funciona contra adversários que estão realmente a fazer squeeze. Se não tens nenhum tipo de leitura que o teu oponente tem este movimento no seu arsenal então o seu grande re-raise após o teu raise e vários calls provavelmente significa mesmo que ele tem realmente uma grande mão, e tentar aqui um re-squeeze provavelmente vai fazer com que percas todas as tuas fichas.
Adicionalmente deves saber que se tentares este movimento vezes a mais vais levar call muito mais light (com um range mais alargado de mãos) por alguns jogadores nomeadamente bons jogadores com a percepção do que estás a fazer, embora, definitivamente não seja qualquer jogador que sinta o conforto suficiente para jogar um grande pote pré-flop sem um grande par ou AK.
Deves também ter atenção à tua stack, é importante que o teu re-raise seja suficientemente grande para poder afastar o jogador da sua mão, deves analisar se tens realmente fold equity e com que stack o teu adversário fica se fizer fold ao teu re-raise (All-in praticamente sempre numa estrutura normal).
No caso de não seres o raiser inicial, isto é, de seres um dos jogadores que fizeram call é bem mais complicado o teu movimento ter sucesso já que não te vão dar tanto crédito por uma mão forte. Um re-squeeze tenta quase sempre representar AA ou KK, e nestas condições vais ter muitas mais dificuldades em fazer com que o teu adversário acredite que realmente tens essas mãos e mais facilmente te colocará num re-squeeze. Nem todos os “squeezers” terão a coragem suficiente para te fazer call com AJ ou com 88 nestas condições, mas mesmo assim, penso que não estão definitivamente reunidas as melhores condições para fazeres um re-squeeze. É desta forma muito importante pensares sobre como o teu adversário reagirá a esta jogada no mínimo estranha.
Concluindo, uma das razões mais importantes pelas quais te aconselho a incluíres ocasionalmente squeezes nos teus movimentos é o facto de que cria um balanço que será fundamental no teu jogo. Explicando melhor, imagina que nunca farias este movimento, tu só farias um re-raise nas blinds por exemplo após um raiser e vários calls com mãos realmente fortes certo? Digamos QQ ou melhor, AQs ou melhor por exemplo! Ora assim sendo vais estar a dar muita informação sobre a tua mão e vão-te colocar num range de mãos bastante restrito porque vão ter a perfeita noção que só fazes re-raises nestas condições com verdadeiros monstros. Por isso a inclusão ocasional deste tipo de movimentos no teu arsenal criará um “mix” fundamental no teu jogo e fará com que o mesmo não seja previsível e explorável.
Como vês, todo o processo de decisão para encontrar um bom pot para um squeeze está muito dependente da análise dos teus adversários e de informação que retiraste dessa análise, por isso está aqui mais uma boa razão para não descurares esse factor nunca. O squeeze é certamente um movimento para ser utilizado apenas ocasionalmente, mas com a devida atenção e escolha de bons spots, é certamente um movimento que te pode dar um grande pote em situações onde, em condições normais, não deverias sequer estar envolvido na mão.
Conhecendo o movimento, tens a vantagem de perceber quando estão criadas boas condições para o mesmo por parte de um adversário teu e dessa forma, podes aplicar o “antídoto” re-squeeze.
Guarda estes movimentos no teu arsenal, algures eles virão a ter grande utilidade no teu jogo.
Boa sorte, e vemo-nos nas mesas,
Oversleep.


